sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Patinho feio: ou simplesmente a "meia-oito" do Sêo Emídio

Desde 1913 a autarquia federal E. F. Oeste de Minas não encomendava locomotivas para a frota que servia as linhas da "bitolinha". Na última aquisição houve uma troca de fornecedor: por alguma razão a The Baldwin Locomotive Works não pôde atender os pedidos da Oeste, cabendo a esta encomendar à concorrente norte-americana da BLW, a American Locomotive Company, ou, simplesmente, ALCo.
Em 1919, pela necessidade de reforços para atender à demanda do transporte - até mesmo para a paralização de material mais antigo na razão de revisão geral - houve nova encomenda à Baldwin (desconfiamos que a ALCo foi preterida pela baixa eficiência das três máquinas que enviara em 1913). Entre as unidades que vieram destacou-se a única Consolidation da encomenda, que recebeu a matrícula de nº 56.


Página do livro: THE BALDWIN LOCOMOTIVE WORKS. A Baldwin no Brasil (1862-1922). Philadelphia: BLW, 1922. Fotografia oficial da EFOM 56.

Esta locomotiva muito se difere de todas as outras 2-8-0 de sua companhia. Mais comprida, mais alta, enfim, mais imponente do que de costume, se destaca facilmente entre as outras máquinas da mesma bitola. Isso gerou a lenda entre os maquinistas de que a 68 teria sido concebida originalmente para a bitola métrica, e não para a de 0,76m, um mito que foi derrubado primeiramente com a pesquisa que levou ao aparecimento da imagem acima, que mostra que a bitola da menina nunca foi alterada, e também com a chegada de imagens de Cuba, onde há "irmãs" do nosso "patinho feio". Em Cuba, a "meia-oito do Sêo Emídio" não seria o "patinho feio".

E nos canaviais cubanos, eis que há uma "meia-oito do Sêo Emídio", também convertida para queimar óleo BPF, e também com o sino trocado de posição com o areieiro da frente. Foto de Simon Daniel.

Muito famosa ficou a 68 pelas suas características particulares. O número definitivo, como já pôde perceber quem segue o blog, é resultado da última renumeração da frota da ferrovia, quando houve a unificação do sistema da rede Mineira de Viação, em que as locomotivas da "bitolinha" ficaram com os números de um e dois algarismos. De meados da década de 20, quando a Oeste de Minas renumerou toda a frota de acordo com o critério de rodagem, até 1937, a 68 foi a 221 (as 2-8-0 ficaram com a série 200: 200 a 221), último número das locomotivas de bitola de 0,76m. Pelo fato de ela ter andado algumas casas na última renumeração, ficando com o 68 (na série entre 50 e 71), desconfiamos que o critério para a ordem obedecera o esforço de tração das unidades, o que nos leva a crer que nesse quesito a "gigantinha" era ainda superada pelas "baixinhas" 69, 70 e 71, idênticas à todas as outras 2-8-0 BLW, exceto a 68.

O fotógrafo Charles Small capturou o maquinista Emídio Giarola, que no título chamo de "Sêo Emídio", junto de suas duas locomotivas. Por anos trabalhou com a 4-6-0 RMV/VFCO 39 e foi transferido no quadro para trabalhar com a VFCO 68.

As imagens do "Sêo Emídio" junto da 68 nos levam a pensar o quanto a relação entre os ferroviários e as locomotivas reconfiguram o próprio papel da máquina. De ferramenta de trabalho, a locomotiva a vapor alcança o status de companheira de trabalho, um ente querido.

"À MINHA QUERIDA E DEDICADA MULHER, MARIA DE ALMEIDA, OFEREÇO COMO UMA PERENE LEMBRANÇA, SENDO A LOCOMOTIVA 68 COM A QUAL TRABALHO HÁ MAIS DE 16 LONGOS ANOS, E EM MINHAS VIAGENS SEMPRE COM O PENSAMENTO VOLTADO PARA ELA. S.J, 20.1.76"
Foto Acervo NEOM-ABPF.

O Sr. Emídio Giarola, como maquinista, ficou bastante conhecido por adotar uma série de artifícios que tornavam sua locomotiva um fenômeno diferenciado. Cataventos, bandeirinhas, estrelas, faróis "olho-de-boi", cores berrantes (utilizava o amarelo em detalhes que no padrão VFCO eram prateados), além do apito com dimensões avantajadas e uma sirene a vapor. O estilo de tocar o apito era tão peculiar que, certa vez, foi tirar satisfações com meu tio na entrada da estação de São João del-Rei devido ao fato do colega ter entrado na cidade apitando como ele. "Você tá apitando pras minhas muié, hein?"

Para quem quiser assistir ou relembrar em video: clique aqui.

Depois da foto oficial, talvez seja este o mais antigo registro da 68, o ano era 1948, durante o período da Rede Mineira de Viação. Foto Acervo NEOM-ABPF.

O maquinista admirando a máquina. Emídio Giarola e sua 68. Foto Acervo NEOM-ABPF.

Close no sistema de tração, Barroso, MG, década de 70. Foto Acervo NEOM-ABPF.

VFCO 68 na direção de Aureliano Mourão/Rio Grande, passando em frente ao antigo Patronato, atualmente CTAN-UFSJ. Foto de John West, simpaticamente cedida pelo fotógrafo.

 Na vala de manutenção, sem as braçagens, 1979. Foto Acervo NEOM-ABPF.

Aposenta o Sêo Emídio e a 68 sofre alterações. Na Ponte do Inferno meu tio Joaquim, maquinista, posa para a câmera em 1982. Foto Acervo NEOM-ABPF.

A partir de 1984 o trem passava a sre apenas turístico, entre São João e Tiradentes, ainda sem girador, a locomotiva saía de S.J. de tender para voltar na configuração "normal", mais tarde. Foto Acervo NEOM-ABPF.

Tem gente que não pode ficar sozinho com uma locomotiva. Deixaram o Vitor solto, olha no que deu, ele embonecou a 68. A placa São João del-Rei não tem sentido, já que ela indicaria o nome da locomotiva, e esse nome pertence à locomotiva nº1, e o padrão de pintura RMV que não é da RMV, ano 2000.

 Em 1999, o "patinho feio" completava 80 anos de existência. Foto de Hugo Caramuru.


Fabricante: The Baldwin Locomotive Works
Nº de série: 52256
Data: Setembro de 1919
Classificação White: 2-8-0 Consolidation
Classe: 10-20-E
Longerão: outside-frame (externo às rodas, com contra-balanços)
Bitola: 2' 6" (0,76m)
Primeiro nº: 56 (E. F. Oeste de Minas, 1919-1925)
Segundo nº: 221 (E. F. Oeste de Minas, 1925-1931, e Rede Mineira de Viação - Oeste, 1931-1937)
Terceiro nº: 68 (Rede Mineira de Viação, 1937-1966; Viação Férrea Centro Oeste, 1966-1975, e RFFSA SR-2, 1975-1996)

4 comentários:

Thiago disse...

Maravilha Welber,quando eu converso sobre trens com meu avô (que não é ferroviário mas viajou muito nesse trem)ele sempre toca no nome do Sr. Emídio Giarola e todos que o conheceram afirmam que ele tinha um apito só dele.No post anterior eu havia dito que se fosse possível postar fotos das máquinas nos trechos seria bacana,bem,agora você colocou uma foto da 68 passando perto do Patronato no caminho para Ibitutinga e vou te falar,como deveria ser prazeroso viajar de trem por esses trechos,fotos assim ninguém conhece e graças a você podemos ter uma idéia de como era esses lugares antes da destruição das linhas,muito bom mesmo.

Welber disse...

Thiago, ainda tem mais...

Danilo Barcelos Corrêa disse...

eu gostei da 68!
ela é a mais simpática até agora!

Welber disse...

Dan, eu sei que você gosta mesmo dos excêntricos.