Sempre achei que foi um júbilo fingido para dissimular seu desencanto, pois à primeira vista já se via, no próprio estado dos vagões, os estragos do tempo. Eram os antigos de segunda classe, mas sem assentos de vime nem vidros de subir e descer nas janelas, e com bancos de madeira curtidos pelos fundilhos lisos e calorentos dos pobres. Em comparação com o que tinha sido em outros tempos, não apenas aquele vagão, mas o trem inteiro era um fantasma de si mesmo. Antes tinha três classes. A terceira, onde viajavam os mais pobres, eram os mesmos caixotões de madeira em que transportavam bananas ou as reses de sacrifício, adaptados para passageiros com bancos longitudinais de madeira crua. A segunda classe, com assentos de vime e molduras de bronze. A primeira classe, onde viajava o pessoal do governo e os altos funcionários da companhia bananeira, com tapetes no corredor e poltronas forradas de veludo vermelho que mudavam de posição. Quando viajava o superintendente da companhia, ou sua família, ou seus convidados mais destacados, enganchavam na rabeira do trem um vagão de luxo com janelas de vidros escuros para proteger dos brilhos solares e beirais dourados, e uma varandinha descoberta com mesinhas para viajar tomando chá. Não conheci nenhum mortal que tenha visto por dentro aquela carruagem de fantasia. Meu avô tinha sido prefeito duas vezes e além do mais tinha uma noção alegre de dinheiro, mas só viajava de segunda classe quando ia com alguma mulher da família. E quando perguntavam a ele por que viajava de terceira, respondia: 'Porque não existe quarta'. No entanto, em outros tempos, o mais memorável do trem tinha sido a pontualidade. Os relógios das aldeias acertavam a hora pelo seu apito.
GARCIA MARQUEZ, Gabriel. Viver para contar. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 19.
GARCIA MARQUEZ, Gabriel. Viver para contar. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 19.