quinta-feira, 11 de abril de 2013

Modernidade: papel, aço e fumaça

 
gutemberg
Johannes Gutemberg (1390-1468)

Gutemberg fez alguns "estragos" quando criou um modo de facilitar a publicação de livros. A propagação da leitura para além dos muros das abadias acabou levando indivíduos de estratos sociais menos privilegiados a gozarem do prazer (e das confusões) proporcionado pela escrita, além de ter ampliado exponencialmente a chegada aos ouvidos de analfabetos de histórias disponíveis antes apenas para religiosos, nobres e aristocratas. Na mesma medida, possibilitou aos escritores profanos e hereges propagarem suas idéias a esse público deveras ampliado.
Um exemplo do alcance e difusão da palavra escrita no baixo medievo, e uma das evidências da entrada em novos tempos - chamados por nós, observadores do processo temporal, de "modernidade" - é o caso do moleiro do norte da península itálica, Domenico Scandella, ou Menocchio, descoberto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg em suas pesquisas sobre os benandanti (sobre os quais o autor escreveu: I benandanti: Stregoneria e culti agrari tra cinquencento e Seicento).
A consciência nacional, ou, na tradução mais estreita, a maturação das "comunidades imaginadas", tema ensaiado pelo historiador de origem britânica, Benedict Anderson, segundo o mesmo é fruto, entre outros fatores, do avanço da leitura e do crescimento das identidades coletivas em espaços mais amplos, onde a língua e a experiência vivida davam a forma do sentimento de pertencimento.
"Se o conhecimento pelos manuscritos era um saber restrito e arcano, o conhecimento pela letra impressa vivia da reprodutibilidade e da disseminação".
Assim, a reprodução mecânica literária refletia o avanço do capitalismo, como parte do processo de grandes mudanças no tempo do mundo e nas relações sociais e, consequentemente, culturais. O mesmo Anderson cita Francis Bacon, que julgava que a imprensa fora responsável por transformar "o aspecto e a condição do mundo". É bom percebermos que, com a proliferação da leitura, coincide a multiplicação de grupos dissidentes no cristianismo do baixo medievo. Entre luteranos, anabatistas e uma série de pequenos grupos o cristianismo sofre uma série de revisões e contestações, enfim, acontece o que ficou conhecido historicamente como A Reforma, o que demandava uma resposta de Roma de forma a combater a heresia dos que contestavam a doutrina. A reação ocorreu tanto pelo lado artístico e conceitual, como pelo reforço na ação do Tribunal do Santo Ofício (atualmente com o nome de Congregação para Doutrina da Fé, que foi presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger antes de receber a fumacinha branca). O processo de transformação, das mudanças sócio-político-culturais que, apesar de constantes, ocorreram entre o Medievo e a Idade Contemporânea, tem grande catalisador no momento em que a leitura se expande entre os populares e a consciência, tanto no nível religioso como no social, se expande para novas instituições e formas de pensamento.
Além disso, como podemos ler nas elucubrações de Hannah Arendt, em A Condição Humana, a Terra torna-se pequena com as observações e descobertas de Galileo. Sobre o florentino ela diz:
“aquelas primeiras espreitadas tímidas na direção do universo, através de um instrumento ao mesmo tempo ajustado aos sentidos humanos e destinado a revelar aquilo que ficará definitiva e eternamente longe do seu alcance, estabeleceram as condições de um mundo inteiramente novo e determinaram o curso de outros eventos que, com muito maior alarde, iriam dar início à era moderna”.
(...)
“O que Galileo fez e que ninguém havia feito antes foi usar o telescópio de tal modo que os segredos do universo foram revelados à cognição humana ‘com a certeza da percepção sensorial’; isto é, colocou diante da criatura presa à Terra e dos sentidos presos ao corpo aquilo que parecia destinado a ficar para sempre fora do seu alcance e, na melhor das hipóteses, aberto às incertezas da especulação e da imaginação”.
Vem a calhar aqui a utilização do termo “segredo”. A modernidade, ao que parece, traz de volta a força da busca por desvendar os segredos, sejam os do universo, sejam os da condição humana. A busca por respostas diferentes da cartilha institucional católica é um ponto crucial na composição de um novo mundo. E a expressão “novo mundo” ou “mundo novo”, como é analisada por Ginzburg no caso Menocchio, pode ter conotações diversas. No caso do moleiro de Pordenone, o novo mundo se tratava mais de um entendimento de mudança no comportamento e na condição humana, uma espécie de revolução espiritual e social do que outra coisa. Entretanto, pela época a que nos referimos, devemos lembrar que muito de novo vinha acontecendo. As descobertas de terras que hoje chamamos América é um dos fenômenos resultantes da saída do europeu mar adentro (ou afora) em suas atividades comerciais e extrativistas além mar. O que podemos somar na conta da expansão da consciência. A expansão é generalizada: expansão territorial, expansão espiritual, expansão política, expansão artística, etc. O mundo, no que nós entendemos e convencionamos chamar de passagem de eras, da Idade Média para a Modernidade, está em alargamento ampliado na chegada da modernidade. Paradoxalmente, o mesmo mundo torna-se menor com o passar desse tempo. O que podemos perceber é que os novos tempos, a maquinarização, o aumento da escala produtiva e o incremento da velocidade, torna tudo mais próximo em um mundo em que até outro dia tudo era muito distante.
A consolidação das línguas vulgares de origem românica e o aburguesamento do mundo se refletem na publicação da bíblia de Gutemberg. Ou, como disse Anderson, “a lógica do capitalismo dizia que, saturado o mercado em latim para a elite, seria a vez dos mercados potencialmente enormes das massas monoglotas”. Na reação conhecida como contra-reforma, a Igreja forçou a permanência do latim, no que o sucesso foi barrado pela crise econômica pela qual passava a Europa, crise que levou os editores a produzirem publicações mais baratas em línguas vernáculas. A consciência nacional cresce no mesmo rítimo em que a técnica e suas máquinas invadem o planeta.
A efervescência das contestações, os rompimentos de setores de instituições milenares de forma revolucionária, a ampliação de movimentações artísticas (muitas vezes sob encomenda), a ampliação dos meios de produção e transporte, a observação das estrelas pelo telescópio, as viagens oceânicas e, logo em seguida, a maturação da técnica com o advento da energia a vapor e das máquinas de aço.
Falar de capitalismo de maneira aberta é tarefa ingrata. Mas, justificarei a utilização aqui com as palavras de Fernand Braudel, que demonstrou que utilizar o termo para período anterior ao “modo de produção” industrial requer certa dose de ousadia ou, na melhor das hipóteses, uma imensa coragem para desbravar conceito tão anacrônico e ideologicamente tão abusado.
“E foi pena não a ter evitado! Exclamarão todos aqueles que acham que se deve deitar para o cesto de papéis, de uma vez para sempre, esta ‘palavra de combate’, ambígua, pouco científica, utilizada a torto e a direito. E sobretudo, impossível de empregar sem anacronismo culpável antes da era industrial. (...) De toda maneira, a precaução é ilusória. Se fizermos sair o capitalismo pela porta, ele entrará pela janela. Porque há, quer se queira quer não, até na época pré-industrial, uma atividade econômica que evoca irresistivelmente a palavra e que não aceita nenhuma outra.”
O que temos em vista é que o mundo mudou com a ampliação dos livros em línguas vulgares (apesar de todo o esforço do Santo Ofício), a ampliação das seitas cristãs pelo racha da Igreja (principalmente com o luteranismo), e com a substituição, principalmente no século XIX, da madeira pelo ferro (e aço) como principal material de estruturas edificadas. Um processo complexo de acontecimentos que se ampliam exponencialmente com a expansão do mundo conhecido. As estradas de ferro, instaladas em todos os cantos do mundo moderno, juntamente com o belo funcionamento do relógio, fizeram com que o tempo da humanidade passasse a ser regulado por movimentos de ponteiros e apitos de locomotivas. A comunicação acelerada derrubou barreiras espaciais e reduziu o tempo dos encontros sociais. Os barcos a vapor nos oceanos e as locomotivas a vapor em terra trouxeram, para o mundo aburguesado, todas as comodidades da nova humanidade. Uma humanidade regulamentada pelo papel, cercada de aço e entupida de fumaça.

20th Century Limited
Em 1830 os 30km/h da ferrovia Liverpool & Manchester eram assustadores, em 1930 os 100km/h do Expresso Twentieth Century Limited da New York Central Railroad era a velocidade de cruzeiro. O ferro e o aço, movimentados pelo casamento da água com o fogo da queima do carvão, se espalharam pelo planeta.
 
Sugestões de leitura
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. SP: Cia. Das Letras, 2009.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. RJ: Forense Universitária, 2007.
BRAUDEL, Fernand. Os Jogos das Trocas. Lisboa: Edições Cosmos, 1982.
GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. SP: Cia. De Bolso, 2006.
HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções. RJ: Paz & Terra, 2004.

























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