sábado, 5 de março de 2011

O inferno da ponte


3 comentários:

José Antônio de Ávila disse...

Seguindo uma estradinha além da Estação Ferroviária de Aureliano Mourão, sobre o leito da antiga ferrovia e sempre margeando o Rio das Mortes, chega-se na “Ponte do Inferno”. São vestígios de uma ponte metálica por onde a ferrovia cruzava uma espécie de inferno da “Divina Comédia”, transmudado em águas. Será que a Ponte do Inferno, com seus estigmas, enigmas e casos fantasiosos, pode ser uma metáfora? Ela pode querer fazer com que nos aproximemos de uma das partes da trilogia da alegoria dramática de Gil Vicente, no seu “Auto da Barca do Inferno”, onde barqueiros do inferno e do céu esperam à margem de um rio os condenados e os premiados. No nosso caso, creio que quase ninguém merecerá ser transportado ao paraíso; assim, o barqueiro transportará apenas condenados ao inferno, pois que assistimos inertes ao aniquilamento da EFOM; então, somos corresponsáveis e/ou herdeiros de um dos maiores crimes coletivos perpetrados contra o patrimônio ferroviário brasileiro. Será que a sátira de Gil Vicente nos servirá de modelo para tocar nas feridas sociais de outros tempos, lembrando-nos um mundo ferroviário infelizmente perdido? Este exame faz com que eu me reporte pela segunda vez a Dante, aquele que prenunciou que os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que em tempos de crise permanecem indiferentes ou “pensam com as pernas”. Será que ficamos indiferentes ou fugimos das responsabilidades por ocasião da criminosa destruição das linhas da EFOM? Será que ainda estamos agindo assim, atualmente? Será que estamos repetindo o erro ao permitirmos o descuido com o acervo que sobrou da Oeste de Minas e que que ainda teima sobreviver no curto trecho entre São João del-Rei e Tiradentes?

José Antônio de Ávila disse...

ESPECULAÇÕES SOBRE A ORIGEM DO NOME DA PONTE:
Embora tenha pesquisado, ainda não me foi possível saber ao certo a origem da denominação da "Ponte do Inferno".
Indagando sobre o assunto, várias foram as justificativas, nenhuma delas oficiais. O ex-ferroviário Benito Mussollini Grassi de Lelis alegou-me que já ouvira falar que a denominação teve sua origem nas levas de pescadores que amaldiçoavam aquele trecho do rio, pois perdiam vários anzóis nas proximidades da ponte; desta forma, quando convidados para pescar naquelas paragens, justificavam as suas negativas dizendo: “não, aquela ponte lá é um inferno!” (será que era o Caboclo d’Água que arrebentava os anzóis?). Benito disse-me também que, certa ocasião, quando uma máquina, ao aventurar-se a passar sobre o deslizamento de uma barreira nas proximidades da ponte, certamente bateu em uma pedra e caiu dentro do rio; para tirar a Maria Fumaça lá de dentro, os cabos de aço arrebentavam continuamente, o que fazia a equipe de resgate se queixar: “mas que inferno!”.
Bruno Nascimento Campos, estudioso da história das nossas ferrovias, aventura-se a dizer que “o nome ‘Ponte do Inferno’ pode ser devido à conjunção do barulho, causado pela passagem das águas nas pedras no funil formado exatamente embaixo da ponte, pela altura da ponte e pelas pedras que existem embaixo da ponte e no seu entorno”.
Eu, menino criado na roça, ouso perguntar: será que o nome da ponte teria a sua origem no “inferno do moinho d’água”? Esta modalidade de inferno é um buraco, fica num piso semi-enterrado, aonde a força da água faz girar as pás da roda motriz e o eixo do rodízio, que por sua vez faz girar a pedra-mó que tritura os grãos. O “inferno” dos moinhos de moer fubá, na roça, é um espetáculo medonho de profusão das águas; é também revestido de pedras, barulhento e de forte correnteza, assim como se apresenta a versão das águas que correm no afunilado do rio, sob aquela ponte ibiturunense...

Welber disse...

O mais interessante é mesmo a imaginação sobre uma ponte de nome terrível sobre um rio de nome idem.
Mas, creio, e ainda não encontrei, algum relatório, seja de ministérios da república velha ou das assembléias de acionistas podem trazer a justificativa para o nome.