domingo, 19 de abril de 2009

Bens de capital ou dragões que comem fogo?




A chamada revolução industrial, processo de transformação das sociedades em que o mercantilismo cede caminho ao capitalismo, propiciou determinados fenômenos que merecem certa atenção.

É possível, desde que Richard Trevithik fez seu experimento com a máquina a vapor a qual batizou Catch Me Who Can em público, perceber que a parafernalha de ferro e aço chamada de locomotiva é mais do que um objeto de transporte. Para além de seu papel primordial, a locomotiva a vapor (e na atualidade suas sucessoras com motores de combustão interna) alcançou o status de fetiche especial da era do capital. O espanto inicial causado pela velocidade considerada absurda virou encanto aos olhos tanto do público expectador e viajante quanto de trabalhadores das ferrovias desde o século XIX.

Esses monstros sobre rodas transformaram-se, talvez pela imponência e pelo poder de acelerar o tempo ao substituir em parte os veículos de tração animal (no Brasil as tropas de muares e carros de bois), apenas superado com a realização do sonho de Ícaro, com o rápido desenvolvimento da aviação desde o início do século XX.

Na Índia, onde a substituição completa das vaporosas (chamadas de dragões que comem fogo pelos populares) pelas máquinas a diesel se deu apenas nas décadas finais do século passado, ocorria todos os anos, até o sucateamento das locomotivas restantes, o Black Beauty Contest (Concurso Beleza Negra). Tal concurso é uma das mais fabulosas evidências da relação homem-máquina propiciada pelo ambiente de exploração de mão-de-obra nos meios de produção capitalistas.

Enquanto as companhias ferroviárias representavam, no século XIX, uma das atividades responsáveis pela especulação desenfreada nas bolsas de valores e, no Brasil, o meio mais seguro de investimentos devido à garantia de 7% de juros ao capital investido onerando o erário público, os trabalhadores (leia-se mão-de-obra barata) tornavam-se "amigos" de suas locomotivas. A jornada de trabalho de grande envergadura, mesmo com salários ridículos, fazia com que a principal relação tecida num ambiente duro e preto de carvão fosse a de companhia da máquina com a equipagem (tripulação ferroviária). É perceptível nas imagens postadas, em época em que fotografias eram raras e caras, o zelo dos homens para com as suas companheiras de ferro, aço e bronze.

Dizem que a dureza do trabalho braçal ferroviário era compensado pela existência de uma amante em cada estação. Assim são os depoimentos dos que viveram isso em vários lugares do Brasil e, para não perdermos o caráter universal da coisa, lembramos aqui da música Never Marry A Railroad Man (algo como Nunca se case com um Ferroviário) dos holandeses do Shocking Blue.

Fotografias, de cima para baixo:

Viação Férrea Centro-Oeste, RFFSA, 1976, maquinista João Donato (meu tio), foto de Guido Motta.

Rede Mineira de Viação, década de 1940, maquinista Lázaro Benedito e foguista Roberto Pedrosa, Ribeirão Vermelho-MG, coleção Hugo Caramuru.

3 comentários:

Pablo B. Souza disse...

Very bom! Ja vi que safadeza vem de berço. Uhauhauhuahauha!...

Pyretta Blaze disse...

Teu tio?! Oh...

Ahhhhh, e essa música lindaaaaaaaaaaaaaa... rsrs

=*****

@--;----

Pyretta Blaze disse...

Eu nunca andei num trem a vapor! =S